O Novo Luxo

Postado em 19 February 2017

Conheci a Nina Braga, diretora do Instituto-E, há quase dois anos. Quer saber por que ela é uma das figuras pioneiras no contexto da moda sustentável brasileira? Porque Nina sabe o que é luxo de verdade e não aceita qualquer separação entre ética e estética.

Nina assumiu a direção do Instituto-E em 2007, quando o mesmo foi fundado por Oskar Metsavaht, diretor de criação da Osklen, uma das mais importantes marcas de moda do Brasil. O Instituto-E é uma organização da sociedade civil de interesse público que idealiza e implementa projetos socioambientais inspirados nos conceitos dos “6 e’s” – earth, environment, energy, education, empowerment e economics* – com o objetivo de ajudar a promover o Brasil como o país do desenvolvimento sustentável.

Recentemente, falamos sobre moda, Brasil e é claro, sustentabilidade.

*Terra, meio ambiente, energia, educação, empoderamento e economia

Nina Braga e um dos produtos e-fabrics - tênis Osklen feito à mão, de couro de pirarucu, gigante peixe amazônico.  O pirarucu é uma espécie protegida pelas populações locais, sendo a pesca realizada de forma controlada para fins alimentícios. A equipe do Instituto-E se deu conta de que a pele do peixe era jogada fora, e hoje a mesma é utilizada para produzir couro fino para peças de moda. Crédito: Instituto-E
Nina Braga e um dos produtos e-fabrics - tênis Osklen feito à mão, de couro de pirarucu, gigante peixe amazônico.  O pirarucu é uma espécie protegida pelas populações locais, sendo a pesca realizada de forma controlada para fins alimentícios. A equipe do Instituto-E se deu conta de que a pele do peixe era jogada fora, e hoje a mesma é utilizada para produzir couro fino para peças de moda. 

COMO O INSTITUTO-E DEFINE ‘MODA SUSTENTÁVEL’ E POR QUE DEVEMOS NOS IMPORTAR?

Para Oskar Metsavaht, presidente e fundador do Instituto-E, o diferencial da moda feita no Brasil deveria ser a sustentabilidade, uma vez que nosso país reúne todas as condições para isto: abriga a maior biodiversidade do planeta – manancial de matérias primas sustentáveis – aliada à um enorme contingente de mão de obra criativa e em busca de oportunidades de trabalho. A indústria da moda está entre as três maiores empregadoras e é uma importante ferramenta de comunicação. Logo, é fundamental que se priorizem os impactos positivos sob risco de, em caso contrário, ser uma atividade predatória de grandes proporções.

O QUE O INSTITUTO-E TROUXE DE NOVO PARA A INDÚSTRIA DA MODA?

Sem falsa modéstia, pode-se afirmar que o Instituto-E, em parceria com a Osklen, inovou ao colocar na pauta da moda brasileira a questão da sustentabilidade de uma forma cool e contemporânea. Lançamos e divulgamos o conceito do “Novo Luxo”, que é aquele que não aceita qualquer separação entre ética e estética. Um dos projetos criados em parceria com a Osklen é o e-fabrics. O e-fabrics, que se trata de um label único para comunicar os impactos socioambientais de um produto, não só traz benefícios ambientais, como também promove a geração de renda, para populações em situação de vulnerabilidade social, e o empoderamento de grupos comunitários.

Não é à toa que a Osklen, por conta do seu envolvimento com o projeto e-fabrics, foi considerada pela WWF-UK - expresso no relatório Deeper Luxury - como um dos cinco Future Makers mundiais. Este projeto também foi escolhido por organismos internacionais, como o Ethical Fashion Initiative do ITC-UN (International Trade Centre, agência da ONU) e o Ministério do Meio Ambiente da Itália, para ser replicado em outras partes do mundo.

QUE TIPOS DE PARCERIAS MARCAS DE MODA PODEM BUSCAR COM O INSTITUTO-E?

Além de facilitar o contato entre os que procuram por materiais sustentáveis e os grupos produtores, nós creditamos com o “e” os produtos, indicando um conteúdo socioambiental (segundo os critérios do e-fabrics). Em paralelo, disponibilizamos grupos de costureiras – artesãs supervisionadas pelo Instituto-E - aptos a fazerem entregas de qualidade. Desta maneira, buscamos fazer com que a indústria da moda seja ainda mais criativa e, sobretudo, compromissada com os aspectos socioambientais inerentes à esta atividade.

POTENCIAL DO BRASIL PARA CRIAR UMA INDÚSTRIA DA MODA MELHOR E MAIS SUSTENTÁVEL: O QUE PRECISA SER EXPLORADO? O MAIOR DESAFIO ESTÁ EM MUDAR O CONSUMIDOR OU A INDÚSTRIA EM SI?

Ao lado da abundância de materiais sustentáveis e de mão de obra, temos no Brasil o fator criatividade, expresso num design único com capacidade de transformar peças de moda com conteúdo socioambiental em objetos de desejo.

Credit: www.watertraces.org

Todavia, os desafios são inúmeros:

1.     A falta de consciência generalizada, a respeito do valor agregado presente nestas peças sustentáveis, faz com que o mercado consumidor não exerça muita pressão para que as boas práticas se tornem de fato padrões da indústria têxtil. E, com essa falta de pressão, não se pode atingir uma escala que permita que estes itens sejam comercializados a preços competitivos face àqueles que geralmente integram a tal da fast fashion.

2.     Externalidades negativas geradas por 'atividades predatórias', como as encontradas na fast fashion, não são incorporadas ao preço final dos produtos da moda.

3.     Os últimos governos brasileiros não têm se empenhado em formular políticas públicas capazes de incentivar práticas sustentáveis neste setor da economia.

Assim, é válido dizer que tanto a atitude do consumidor quanto a da indústria deveriam mudar, sob risco de não só continuarmos a destruir o imenso patrimônio natural brasileiro, como também de desperdiçamos a oportunidade de desenvolver uma moda cujo diferencial seja a sustentabilidade.


E-FABRICS

Projeto que identifica matérias-primas sustentáveis que possam ser utilizadas pela indústria têxtil e pela cadeia produtiva da moda, estimulando, assim, uma cultura de consumo consciente. O projeto visa a promoção do estudo dos impactos socioambientais no processo produtivo, a preservação da diversidade e das relações sociais com comunidades e, como consequência, ajuda a criar produtos sustentáveis e com design diferenciado.

Entre os anos de 2000 e 2006, o projeto foi incubado pela Osklen, uma marca que valoriza a ideia da brasilidade e do trabalho de experimentação com matérias-primas oriundas de processos sustentáveis. Lançado em 2007, durante a São Paulo Fashion Week, o e-fabrics não funciona como uma certificação mas, sim, como um label único para comunicar os atributos socioambientais do produto.

Para a identificação e-fabrics de tecidos e materiais, é realizada uma avaliação a partir de cinco critérios de conformidade:

  1. Matérias-primas de origem sustentável, renováveis ou recicladas;
  2. Impacto do processo produtivo no meio-ambiente natural;
  3. Resgate e preservação da diversidade e tradições culturais;
  4. Fomento às relações éticas com comunidades e colaboradores;
  5. Design, atributos comerciais e viabilidade econômica. 

Veja mais projetos do instituto-E, como o e-ayiti, aqui.

Por: Carolina Perlingiere 

Crédito da foto: Osklen, Instituto-e, Watertraces.org

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